O Brasil apresentou melhora em 71% dos indicadores acompanhados pelo Observatório Brasileiro das Desigualdades em 2026, mas os avanços não foram suficientes para reduzir a concentração de renda no país. O relatório mostra que, apesar da melhora em áreas como emprego, renda média, pobreza e segurança alimentar, a distância entre o topo e a base da pirâmide social voltou a crescer.
O estudo aponta que o rendimento médio real dos brasileiros chegou a R$ 3.376 em 2025, uma alta de 5,3% em relação ao ano anterior. O crescimento, porém, não foi distribuído de maneira uniforme entre os diferentes grupos da população.
O dado que mais chama atenção está no topo da distribuição. O rendimento médio do 1% mais rico da população foi 31,5 vezes superior ao rendimento dos 50% mais pobres. Em números absolutos, o grupo mais rico reúne aproximadamente 2,1 milhões de pessoas, enquanto a metade mais pobre representa cerca de 106,4 milhões de brasileiros.
A diferença também varia de acordo com a região. O Sudeste apresentou a maior distância entre os grupos, com a renda média do 1% mais rico 30,3 vezes superior à dos 50% mais pobres. No Sul, a relação foi de 21,8 vezes. O Centro Oeste registrou o maior aumento da desigualdade em relação ao ano anterior, enquanto Nordeste e Sul apresentaram redução.
Renda aumenta, mas desigualdade permanece
O crescimento da renda média representa uma melhora importante para o país, mas o relatório alerta que olhar apenas para a média pode esconder diferenças profundas entre grupos sociais.
Os homens tiveram aumento médio de rendimento de 5,8% em 2025, enquanto o crescimento entre as mulheres foi de 4,8%. Com isso, o rendimento médio feminino correspondeu a 72,2% do rendimento masculino.
A disparidade se torna ainda maior quando gênero e raça são analisados conjuntamente.
Mulheres negras tiveram rendimento médio de R$ 2.184 em 2025. O valor é 57,8% inferior aos R$ 5.172 registrados entre homens não negros, grupo que ocupa o topo dessa comparação. O dado evidencia que as desigualdades de gênero e raça continuam combinadas e influenciam diretamente o acesso à renda no mercado de trabalho.
Desemprego e pobreza apresentam melhora
Um dos principais pontos positivos apontados pelo levantamento está no mercado de trabalho.
A redução do desemprego aparece entre os avanços mais importantes registrados pelo relatório. A melhora contribuiu para o aumento da renda média e para a redução da pobreza, mostrando efeitos positivos sobre diferentes dimensões da desigualdade.
O relatório, entretanto, mostra que a melhora dos indicadores de emprego não significa que as diferenças estruturais tenham desaparecido. Mulheres e população negra continuam enfrentando condições menos favoráveis no mercado de trabalho, especialmente quando são analisados os níveis de renda e as oportunidades de ocupação.
O resultado ajuda a explicar uma das principais conclusões do estudo: é possível haver melhora econômica para uma parcela significativa da população e, simultaneamente, aumento da concentração de renda.
Fome diminui, mas desigualdade alimentar permanece
A segurança alimentar também apresentou avanço.
Entre 2023 e 2024, a proporção da população vivendo em domicílios com insegurança alimentar moderada ou grave caiu de 9,5% para 7,7%. O resultado é associado à recuperação do mercado de trabalho e à retomada de políticas públicas de combate à fome.
A melhora, porém, não ocorreu da mesma forma em todo o território brasileiro.
Na Região Norte, 14,9% da população ainda vivia em domicílios com insegurança alimentar moderada ou grave. No Sul, o índice era de 3,7%. A diferença mostra como renda, localização geográfica, infraestrutura e acesso às políticas públicas interferem diretamente na capacidade das famílias de garantir alimentação adequada.
As diferenças também aparecem entre grupos raciais. Entre mulheres negras, a proporção de insegurança alimentar moderada ou grave chegou a 10%, mais que o dobro dos 4,6% registrados entre mulheres não negras. Entre homens, os índices foram de 9,7% para negros e 4,7% para não negros.
A desnutrição infantil também apresentou redução, chegando a 3,4%. Mesmo assim, o indicador continua desigual. A taxa foi de 3,3% entre crianças não negras, 4% entre crianças negras e 7,3% entre crianças indígenas.
Meio ambiente também entra na conta
O relatório trata a desigualdade como um fenômeno que vai além da renda e inclui questões ambientais e territoriais.
A redução do desmatamento aparece entre os indicadores positivos. Ainda assim, os efeitos das mudanças climáticas continuam atingindo de maneira desigual diferentes populações e territórios, especialmente aqueles com menor capacidade de proteção, infraestrutura e adaptação.
Esse aspecto é importante porque desastres ambientais podem provocar perdas de moradia, renda, emprego e acesso a serviços públicos, aprofundando desigualdades que já existem.
Outro dado relacionado ao tema mostra que mais de 4,6 milhões de pessoas vivem em áreas de risco geológico no Brasil em 2026. O número reforça a relação entre território, vulnerabilidade social e exposição a eventos extremos.
O que os números mostram
O levantamento acompanha 42 indicadores relacionados às desigualdades brasileiras, abrangendo áreas como renda, trabalho, educação, saúde, segurança alimentar, meio ambiente, acesso a serviços e condições de vida.
Dos indicadores atualizados, 71% apresentaram evolução positiva, 16% pioraram e 13% permaneceram estáveis. Os resultados mostram, portanto, um cenário de avanços importantes, mas também revelam que a melhora dos indicadores sociais não significa necessariamente uma distribuição mais equilibrada da riqueza.
A principal contradição apontada pelo estudo está justamente aí. O país conseguiu melhorar indicadores relacionados à pobreza, emprego e segurança alimentar, mas não conseguiu transformar esses avanços em uma redução consistente da distância entre os grupos que concentram mais renda e aqueles que permanecem na base da pirâmide.
O relatório também considera positiva a ampliação da isenção do Imposto de Renda para salários de até R$ 5 mil, por aumentar o potencial redistributivo do sistema tributário. A medida, entretanto, é apontada como insuficiente para enfrentar sozinha a concentração de riqueza existente no país.
O retrato apresentado pelo Observatório Brasileiro das Desigualdades, portanto, não é de um Brasil simplesmente melhor ou pior. É de um país que conseguiu avançar em diversas frentes sociais, mas que continua convivendo com desigualdades profundas de renda, gênero, raça e território.
Os números mostram que melhorar a vida da população é possível. O desafio seguinte é fazer com que esses avanços sejam distribuídos de maneira mais equilibrada e reduzam, de fato, a distância entre os extremos da sociedade brasileira.

